DEUS NÃO MORRE!
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| Gabriel Garcia Moreno |
Vinte e um de novembro de 1852. Debaixo de uma enorme
tempestade, uma cena trágica está se passando na cidade de Quito, capital do
Equador. O ditador Urbina havia assinado um decreto iníquo, expulsando todos os
jesuítas do país. Uma grande multidão, indiferente à chuva, se reuniu em frente
do convento para assistir a saída dos religiosos que partem para o exílio. Bem
junto à porta, um jovem com uma perna ferida e necessitando usar muletas,
também espera. Ele é amigo do padre superior, e quando este sai, o jovem lhe
diz:
- "Dentro de dez anos os senhores estarão de volta, e então
nós cantaremos juntos o Te Deum na Catedral."
Os padres, um a um, vão saindo. O último é um noviço de
apenas dezessete anos. Esse não tem obrigação de ir embora, porque o decreto
expulsa apenas os padres. Dá-se então uma cena impressionante: a mãe do
rapazinho, querendo de todas as formas segurar o seu filho, vem chorando e se
deita à sua frente, barrando a saída, e impedindo-o de passar.
O rapaz hesita,
e pensa em desistir. Nesse instante, a voz autoritária e decidida do moço de
muletas se faz ouvir:
– “Firme, Manoelito! Firme!”
Estimulado por este brado, Manoelito cria ânimo, pula por
sobre o corpo de sua mãe, e segue com os outros para o exílio e para a glória.
A multidão se dispersa aos poucos, debaixo da chuva. O
último é o moço de muletas, que se deteve para uma breve oração, e depois se
afasta lento e pensativo. O jovem Gabriel Garcia Moreno fazia planos para o
porvir.
Um mês depois da expulsão dos jesuítas, Garcia Moreno fundou
um jornal (“La Nación”) com a finalidade de combater os crimes do governo. O
ditador lhe mandou dizer que se ele publicasse o segundo número seria expulso
do país. Ele respondeu:
– “Eu tinha numerosos motivos para publicar o meu jornal.
Agora tenho mais um: o não desonrar-me cedendo às suas ameaças”.
Ele publicou o segundo número e foi expulso do Equador,
seguindo depois de algum tempo para Paris. Na capital da França, influenciado
pelo ambiente mundano, ele foi pouco a pouco perdendo o ânimo e a vontade de
lutar. Foi então que se deu um fato providencial, que lhe abriu os olhos para o
perigo que estava correndo, e lhe ajudou a melhorar.
“HÁ QUANTO TEMPO VOCÊ NÃO SE CONFESSA?”
Certo dia em que um grupo de estudantes atacava a religião
católica, Garcia Moreno pôs-se a defendê-la com ardor. Um dos rapazes lhe
objetou:
– “Você falou bem, mas eu acho que não pratica o que fala.
Há quanto tempo você não se confessa”?
Desconcertado por um instante, Garcia Moreno respondeu:
– “Esse argumento vos parece bom hoje, mas eu lhe dou a
minha palavra que amanhã não valerá mais”.
Deixando o local, fez uma longa meditação e depois foi
diretamente se confessar. No dia seguinte recebia a comunhão. Retornou então a
seus atos de piedade para nunca mais deixá-los. Comungava quase todos os dias,
e rezava diariamente o terço, devoção que sua mãe lhe havia ensinado.
DE VOLTA AO EQUADOR
Em 1856 o ditador Urbina deixou o poder e Garcia Moreno pôde
voltar ao Equador. Imediatamente fundou um novo jornal (“La Unión Nacional”),
para combater o novo governo, que também não apoiava a Igreja. Em 1857 é eleito
senador, e apresenta projeto de lei proibindo a maçonaria no país, alegando que
esta era uma seita condenada pela Igreja, e que portanto não poderia ser
admitida num país católico como o Equador. Por causa dessas atitudes recebeu
várias ameaças de assassinato, que só não se cumpriram porque o povo o rodeava
e protegia em qualquer lugar que estivesse.
Em 1859 uma revolução depõe o governo, e Garcia Moreno
assumia a chefia do governo provisório. Em 1861 é eleito regularmente
presidente da República, e seu primeiro ato é chamar de novo os padres
jesuítas. O exílio havia durado exatamente dez anos.
OS FRUTOS DO GOVERNO CATÓLICO
“Ditoso é o povo cujo senhor é Deus”, diz a Sagrada
Escritura. E ditoso foi o Equador enquanto foi governado por esse presidente
que em tudo era fiel e submisso a Deus.
O primeiro período da presidência de Garcia Moreno foi de
1861 a 1865. Deixando o poder então, pois a lei não permitia a reeleição, foi
novamente eleito em 1870, pela maioria absoluta e triunfal. Os historiadores
são unânimes em afirmar que nunca o Equador teve tanto desenvolvimento e
progresso. Abriram-se estradas de ferro e de rodagem por todo o país;
fundaram-se escolas em todas as aldeias; as populações indígenas foram
protegidas e receberam educação; construíram-se hospitais; abriram-se colégios
e universidades. Os roubos e os abusos administrativos foram combatidos de
forma radical e inexorável.
A CONSAGRAÇÃO
Mas Garcia Moreno sabia que só existe verdadeiro progresso
onde há verdadeira moral, e só há verdadeira moral onde se pratica a verdadeira
religião. Por isso, mandou pedir aos redentoristas espanhóis que viessem – com
todas as despesas pagas pelo governo – pregar uma grande missão em todo o
Equador. E ao mesmo tempo, por sugestão do padre Manoel Proaño (o “Manoelito”,
que anos antes ele havia estimulado para Deus e para a fé), mandou pedir aos
bispos do Equador que consagrassem o país inteiro ao Sacratíssimo Coração de
Jesus. Os bispos, aproveitando a ocasião de um concílio provincial, fizeram a
consagração. Imediatamente o Congresso, por unanimidade a transformou em lei,
que Garcia Moreno solenemente assinou. A 18 de outubro de 1873, o Diário
Oficial publicou a lei em sua primeira página, impressa não com tinta comum,
mas com letras de ouro. E no dia 25 de março de 1874, em todas as igrejas do
Equador, o clero, os governantes e todo o povo recitaram em conjunto a
consagração solene, acompanhada pelos toques de sino, e pelas salvas de canhão.
“Este é, Senhor, o vosso povo (…). Nossos inimigos
insultam nossa fé, e se riem de nossas esperanças, porque elas estão em Vós
(…). Que o Vosso coração seja o farol luminoso de nossa fé, a âncora segura de
nossa esperança, o emblema de nossas bandeiras, o escudo impenetrável de nossa
fraqueza, a aurora formosa de uma paz imperturbável, o vínculo estreito de uma
concórdia santa, a chuva que fecunda nossos campos, o sol que ilumina nossos
horizontes, e enfim, a prosperidade e a abundância que necessitamos para
levantar templos e altares onde brilhe, com eternos resplendores, Vossa Santa
Glória (…)”
E o imponente rugido dos canhões, e o bimbalhar solene dos
sinos, e a música festiva das bandas militares anunciavam ao mundo inteiro que
aquele pequeno povo não tinha medo de se dizer católico, e diante de um mundo
ímpio e ateu, não se envergonhava de levantar bem alto o estandarte da
verdadeira fé.
CARREGANDO A CRUZ
Pouco tempo depois os padres redentoristas chegaram ao
Equador, e deram início a pregação das missões. Apesar das chuvas torrenciais,
as igrejas estavam repletas, com milhares e milhares de fiéis. O próprio
presidente, o delegado apostólico, e o arcebispo de Quito não perdiam uma só
pregação. A 24 de abril teve lugar a comunhão geral das mulheres. No dia
seguinte, milhares de homens invadiram as igrejas para se confessar. Garcia
Moreno foi à catedral, e envolto em sua capa, se ajoelhou na fila, atrás do
último penitente. O confessor o viu e lhe foi falar: “Excelência, vós deveis
ter muitas ocupações. Eu o atenderei antes em confissão.” E Garcia Moreno:
“Padre, eu tenho que dar o exemplo a meu povo, eu aguardo a minha vez”.
No dia seguinte, depois da triunfal comunhão dos homens pela
manhã, haveria o encerramento da missão à tarde, com a procissão da Santa Cruz.
Para tal havia sido preparada uma cruz enorme, que dezenas de homens juntos
deveriam carregar.
No sermão de encerramento, o pregador comentou que
antigamente reis e governantes “eram crentes e fervorosos, e não se
envergonhavam de seu Deus, ainda que fosse um Deus crucificado. Mas (continuava
ele) agora não existe mais nem sombra daqueles homens. Em seu lugar, temos reis
do baralho, e presidentes da república de papel…”
O padre não pôde continuar falando. O presidente se pôs de
pé, e estendendo o seu braço para o pregador, disse em alta voz:
“Padre Lopez, o senhor mente! Eu, presidente dessa
república, não me envergonho de Cristo Crucificado. Eu também irei carregar a
Cruz!”
O padre, que não queria outra coisa, encerrou logo o sermão,
e a procissão se iniciou.
Garcia Moreno, todos os ministros de Estado, e todos os
altos funcionários do governo percorreram as ruas de Quito carregando a enorme
cruz. E o presidente não deixou que o substituíssem: “Não quero que isto seja
apenas uma cerimônia”. E prosseguiu até o fim, tendo-se aberto uma chaga em seu
ombro, como resultado de seu ardor.
Pouco tempo depois, uma revista maçônica comentou: “Quando
soubemos que esse homem havia levado processionalmente uma cruz pelas ruas de
Quito, vimos que a medida estava cheia, e decretamos a sua morte.” Na Europa,
vários jornais maçônicos comentaram abertamente que logo Garcia Moreno iria
morrer.
DEUS NÃO MORRE!
Seis de agosto de 1874. Pela manhã, o senhor presidente e
sua Exma. esposa estiveram na Igreja de São Domingos, onde S. Excia. assistiu à
Santa Missa, e recebeu a Sagrada Comunhão. Agora, uma e quinze da tarde, Garcia
Moreno caminha para o Palácio do Governo. No caminho entra na Catedral e adora
o Santíssimo Sacramento, exposto solenemente, por ser esta a primeira
sexta-feira do mês.
Dez minutos depois, S. Excia. prossegue o seu caminho, e
sobe as escadas que conduzem ao balcão do palácio. Então, um grupo de pessoas o
cerca, e um deles, por trás, lhe desfere na cabeça um violento golpe de
machado. Dois outros se adiantam e lhe dão vários tiros à queima-roupa. De novo
outra machadada ainda mais forte o atira no chão, e de novo os revólveres
disparam sobre ele.
Corpo de Garcia Moreno, logo após o brutal assassinato.
Seu corpo é atirado do balcão para o chão da praça, ainda
com vida. Ao perceber isso, o assassino furioso desce do balcão e prossegue
desferindo machadadas sobre o corpo indefeso do presidente. E grita: “Morre
hipócrita! Morre infame! Jesuíta com casaca! Morre tirano!” E então, Garcia
Moreno, num supremo esforço, levanta a cabeça e diz: “Deus não morre!”
O assassino tenta fugir, mas logo se forma um tumulto, e ele
é preso e linchado pelo povo enfurecido. O presidente, ainda vivo, é
transportado para o interior da catedral, e diante do Santíssimo Sacramento
exposto, recebe a extrema unção. E alguns instantes depois, a alma desse
verdadeiro católico voou para o céu.
Ricardo Pattes, “Gabriel Garcia Moreno y El Ecuador de su
tiempo” – México, 1962. Severo Gomes Jurado, SJ., “La Consagración” – Quito,
1973.
Fonte: http://www.santotomas.com.br/?p=481
