A graça
A graça não é um ser material, nem
mesmo um ser espiritual com vida própria, como uma alma ou um anjo, e sim uma
maneira de ser. Trata-se de uma maneira de ser, que Deus produz diretamente na
alma, sem que precise passar pelas mãos de Maria. A distribuição que Ela realiza se dá porque Deus a concede devido à sua
intervenção. Fala-se de Maria como distribuidora e dispensadora das graças.
Essa intervenção efetiva da Virgem na distribuição
das graças deve ser comparada antes de tudo a uma intercessão, porém com tais
características que a tornam possível apenas no céu. O que de fato acontece é
que a Virgem ama a Deus e o contempla face a face, e nessa contemplação e amor
vê em Deus, como em um espelho de infinita pureza, o que o próprio Deus está vendo.
Ela não vê tudo o que Deus vê, pois Deus é infinito, mas vê a parte que
interessa à sua missão de atender as necessidades dos que a Ela recorrem.
É verdade que, sem a intervenção de Maria, a justiça
divina seguiria seu curso, mas o próprio Deus quer que a Virgem recorra à sua
misericórdia. A Virgem não pode ter outro desejo que não seja o desígnio de
Deus, e só pede para seus protegidos o que sabe corresponder ao que Deus queria
que Ela pedisse.
Distribuição universal da graça por Maria
Maria é distribuidora de graças de
tipos diferentes: graças ordinárias e graças sacramentais, que pedimos
diretamente a Ela ou a Deus, a Cristo ou aos santos; graças que solicitamos e
graças que não solicitamos. Maria intervém em todas essas graças, mesmo naquelas
que os hereges recebem, pois também Deus "faz levantar seu sol sobre os bons e os maus, e chover sobre os justos
e os injustos" (Mt 5,45).
Maria obtém graças para todas as almas
santas ou pecadoras que vivem neste mundo.
O verdadeiro motivo da distribuição
universal da graça por Maria não é a sua grande santidade, e sim sua cooperação
na Redenção.
A intervenção de Maria no caso das
graças sacramentais é a mesma de todas as outras graças, obtendo que a alma se
mova no sentido de receber aquela que o sacramento confere.
Assim como dizia São Luís Maria
Grignion de Montfort: Deus A
escolheu para tesoureira, ecônoma e dispensadora de todas as suas graças; de
sorte que todas as suas graças e todos os seus dons passam por suas mãos; e
segundo o poder que ela recebeu, como diz São Bernardino, Ela distribui a quem
quer, como quer, quando quer e quanto quer, as graças do Pai Eterno, as
virtudes de Jesus Cristo e os dons do Espírito Santo.
A própria vida da Virgem nos
apresenta certo número de episódios próprios a fazer pressentir essa mesma
conclusão, mostrando-nos que todas as vezes que Cristo quis conceder aos homens
uma graça de gênero particular, sua Mãe serviu de intermediária.
São Germano de Constantinopla, no
início do século VIII, é extremamente categórico nessas afirmações: “Ninguém se salvou, a não ser por vosso
intermédio, ó Santíssima Virgem. Ninguém se livrou do mal, a não ser por vós, ó
puríssima Virgem. Ninguém recebe graças, a não ser por vós, ó inocentíssima
Virgem. Ninguém obtém o auxílio da graça, a não ser por vós, ó augustíssima
Virgem.” Dante Alighieri colocaria na boca de São Bernardo estas palavras:
“Mulher, és tão grande e podes tanto, que
desejar a graça sem recorrer a ti é pretender que tal desejo voe sem ter asas.”
São Pio X nos da afirmação e
explicação equivalentes na encíclica Ad
diem illum (05/02/1904): “Por essa
união de sofrimentos e vontades entre Maria e Cristo, Ela mereceu com muita
dignidade tornar-se a reparadora do mundo perdido, e pelo mesmo motivo
tornou-se também a dispensadora de todos os dons que Jesus nos adquiriu por sua
morte e seu sangue.”
Bento XV afirma a mesma doutrina
com base nos mesmos motivos: “Por causa
da união da Virgem com Jesus na sua Paixão redentora, as graças de todo gênero
que recebemos do tesouro da Redenção nos são distribuídas, por assim dizer,
pelas mãos redentoras da Virgem das dores”. Em 1921, aprovou o ofício e a
missa em honra de Maria, Medianeira de todas as graças.
Pela atração materna que exerce sobre todos os homens
que a contemplam na simplicidade do seu coração, Maria toma posse da alma para
conduzi-la infalivelmente a Cristo."Se ela participou do sofrimento, é justo que também participe da glória".*
* Adaptação da resposta de Santa Joana d'Arc aos juízes, que alegavam estranheza pelo fato de ela ter levado o próprio estandarte à sagração do rei em Reims.
Fonte: Maria Santíssima como a Igreja ensina de Padre Émile Neubert.
